Rita Oliveira | Chief Executive Officer (CEO) Shift Your Branding Agency
Há uma pergunta que me fazem com frequência: de onde vêm as ideias?
A resposta honesta é: de todo o lado, excepto do sítio óbvio.
Os melhores insights que tenho trazido para o trabalho este ano não vieram de publicações da especialidade nem de conferências de marketing. Vieram de um livro sobre a Fórmula 1, de uma série de ficção científica alternativa, e de três podcasts que me obrigam a entrar em territórios que não são os meus.
Há muito que acredito que as mentes que resolvem melhor os problemas de marca são as que conseguem cruzar referências de áreas diferentes. O que me interessa num podcast sobre liderança não é a lista de conselhos — é o ângulo de entrada. A pergunta que o apresentador escolhe fazer primeiro.
O que estou a ouvir
Tenho três podcasts em rotação constante: Uncensored CMO de Jon Evans, How We Got Here de Chris Kohler, e A História do Dia do Observador.
O que têm em comum não é o tema, é o método. Os três constroem contexto antes de apresentar conclusões. Analisam marcas, decisões e culturas a partir de ângulos que raramente aparecem nas publicações tradicionais de marketing.
The Uncensored CMO é particularmente útil: Evans entrevista directores de marketing com carreiras longas e deixa-os falar sobre os erros. Não os sucessos. Os erros. É onde se aprende mais.
Fora disto, consumo também Joana Marques e Ricardo Araújo Pereira. O humor inteligente é uma das formas mais honestas de análise cultural que existem.
O que estou a ler
Seven Tenths of a Second, de Zak Brown.
É um livro sobre a Fórmula 1. Mas, na prática, é um livro sobre o que acontece quando cada detalhe importa.
Em F1, não há margens para o que “fica para depois”. Uma curva mal calibrada, um pit stop meio segundo mais lento, uma estratégia de pneus decidida por exclusão tudo soma. E como Brown escreve, em contextos altamente competitivos, nenhuma decisão é realmente pequena.
Penso nisso constantemente quando trabalho em estratégia de marca. Há uma tendência para reservar a atenção estratégica para os momentos grandes. Mas são as decisões intermédias, a hierarquia de informação que ficou por definir, o tom que variou de canal para canal, que determinam se uma marca tem carácter ou apenas presença.
O que estou a ouvir (música)
The Blue Danube de Johann Strauss II.
A música clássica tem uma propriedade que acho fascinante: soa simples enquanto contém uma construção extremamente complexa. Quanto mais a ouvimos, mais detalhes descobrimos.
As melhores identidades de marca funcionam da mesma forma. Parecem simples à superfície. Por baixo, há um sistema de decisões que sustenta essa aparente leveza.
O que estou a ver
For All Mankind, na Apple TV+.
É uma ucronia, uma ficção que parte de uma premissa histórica diferente. E se a União Soviética tivesse chegado primeiro à Lua? O que mudaria a seguir? E o que mudaria por causa disso?
O que me prende não é o drama. É o exercício mental. As ucronias obrigam-nos a questionar o que damos por garantido. A perceber que o que existe hoje não era inevitável, foi resultado de decisões específicas, em momentos específicos.
Faço esse mesmo exercício com os briefings que recebo. Quando um cliente chega com um problema definido, a primeira coisa que procuro perceber não é a resposta, é se a pergunta está bem formulada. Muitas vezes, o problema que está escrito não é o problema que existe.
O “e se?” mais útil raramente é o da ficção científica. É o do início de qualquer projecto.
Artigo adaptado do texto originalmente publicado na Revista Briefing