Por Patrícia Rodrigues, CFO da Shift Your Branding Agency
Porque o futuro das agências não depende apenas do talento
Atualmente, fala-se muito de criatividade. Fala-se de prémios, crescimento, campanhas virais, inovação e Inteligência Artificial. Mas fala-se pouco de sustentabilidade financeira, apesar de ser ela que determina se uma agência existe daqui a cinco anos.
Durante demasiado tempo, a narrativa dominante no setor foi simples: talento gera trabalho, trabalho gera faturação e faturação gera estabilidade. A realidade mostrou que a equação não é assim tão linear.
Há agências talentosas que vivem permanentemente em tensão financeira, equipas competentes a trabalhar com margens mínimas e estruturas que crescem em volume, mas aumentam em risco, em vez de o reduzir. O problema raramente está na criatividade, mas nos pilares que a suportam.
O setor habituou-se a normalizar margens curtas, quase como se fossem inevitáveis, e a aceitar horas não faturadas como parte do jogo. Competir por preço tornou-se prática recorrente e, aos poucos, o que deveria ser exceção passou a ser modelo. Até o crescimento começou a ser confundido com sustentabilidade, quando, muitas vezes, representa apenas maior exposição.
Crescimento não é sinónimo de sustentabilidade
Sustentabilidade financeira não é sinónimo de cortar custos ou de travar ambição. É sinónimo de ter critério.
É saber que nem todos os projetos devem ser aceites, que visibilidade não substitui rentabilidade e que crescimento sem margem é apenas volume. E não, estar ocupado não é o mesmo que ser sustentável.
Grande parte da fragilidade do setor não resulta de uma única decisão errada, mas da acumulação de pequenas concessões feitas sob pressão: descontos sucessivos para garantir contratos, dependência excessiva de poucos clientes e equipas dimensionadas para picos que se tornam permanentes.
Falamos de custos que nem sempre aparecem de forma explícita nas contas, mas que corroem a capacidade de investimento e a resiliência quando o mercado abranda — o que, sabemos, acontece com frequência.
A função financeira não limita. Protege.
A função financeira nas agências não deve ser vista como um travão à criatividade, mas como uma condição para que ela possa existir de forma consistente.
A estrutura não limita, protege.
Permite investir com segurança, negociar com margem e atravessar ciclos de mercado sem entrar em modo de sobrevivência. Sem esta base, qualquer crescimento é frágil e qualquer ambição fica dependente de fatores externos.
Uma questão de maturidade do setor
Num contexto cada vez mais exigente, onde se pede mais por menos e a pressão competitiva é crescente, talvez a verdadeira vantagem já não esteja apenas na criatividade, mas na disciplina estratégica que sustenta o negócio.
Enquanto o setor continuar a ignorar este tema, continuará também a aceitar uma instabilidade que pode ser evitada através de decisões mais conscientes.
A sustentabilidade financeira não é um detalhe técnico.
É uma decisão estrutural.
E, cada vez mais, uma questão de maturidade.
Artigo originalmente publicado na Marketeer.